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AUTORES/ OBRAS/TEXTOS DA 1ª FASE MODERNISTA
AUTORES/ OBRAS/TEXTOS DA 1ª FASE MODERNISTA

 

 

 

MODERNISMO NO BRASIL



MÁRIO DE ANDRADE

(1893-1945)

         

        Mário Raul de Morais de Andrade nasceu e morreu na cidade de São Paulo (1893-1945). Concluído o ginásio, estudou no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, lecionando História da Música a partir de 1922. Foi professor de piano, colaborador de diversos jornais e funcionário público. Em 1938, no Rio de Janeiro, dirigia o Instituto de Artes da Universidade do Distrito Federal. Reorganizou o Instituto Nacional do Livro, elaborando o anteprojeto do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

        Em 1917, publicou seu primeiro livro: Há uma gota de sangue em cada poema, sob o pseudônimo Mário Sobral. Nessa altura, Mário já adquirira fama de erudito. A participação na Semana, a publicação de Paulicéia Desvairada (1922) e a nomeação como professor catedrático do Conservatório Dramático e Musical consolidaram seu prestígio. A cidade de São Paulo constitui tema frequente de sua obra.

         Quatro anos depois, motivos políticos provocaram seu afastamento e a mudança para o Rio, onde exerceu o cargo de professor da Universidade do Distrito Federal. Pouco tempo Mário conseguiu ficar lá. A ligação com São Paulo era muito forte. Voltou à cidade natal, onde permaneceu até a sua morte, em 25 de fevereiro de 1945.


OBRAS:

POESIA: "Há uma gota de sangue em cada poema" (1917);

               "Pulicéia Desvairada" (1922);

               "Losango Cáqui" (1926);

               "Clã do Jabuti" (1927);

               "Remate de Males" (1930);

               "Poesias" (1941);

               "Lira Paulistana" (1946);

               "O Carro da Miséria" (1946);

               "Poesias Completas" (1955).

CONTO:  "Primeiro Andar" (1926);

               "Belazarte" (1934);

               "Contos Novos" (1946).


ROMANCE: "Amar, Verbo Intransitivo" (1927);

                   "Macunaíma" (1928).

ENSAIO:  "A Escrava que não é Isaura" (1925);

                "O Aleijadinho e Álvares Azevedo" (1935);

                "Namoros com a Medicina" (1939);

                "O Movimento Modernista" (1942);

                "Aspectos da Literatura Brasileira" (1943);

                "O Empalhador de Passarinho" (1944).

PUBLICAÇÕES PÓSTUMAS: "A Lição do Amigo" (cartas a Carlos Drummond de Andrade", publicadas por este em 1988);

                                              "Cartas a Manuel Bandeira" (1958).



OBRA "PAULICÉIA DESVAIRADA"(1922)

poesias

          Esse livro de poesias é de 1922. É uma reunião dos primeiros poemas modernistas de Mário de Andrade, que correspondem às ousadas experiências de linguagem: verso livre, associações de imagens, simultaneidade e linguagem coloquial.


OBRA "REMATE DE MALES" (1930)

poesia

 

          O livro "Remate de Males", publicado em 1930, reúne diversas composições do autor, em vários estilos, escritas durante os anos 20, desde o vanguardismo até a lírica equilibrada e contida, passando pelo

nacionalismo.


        O poema selecionado demonstra essas características mencionadas.


Eu Sou Trezentos


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Ôh espelhos, ôh! Pirineus! ôh caiçaras!

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!


Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!


Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo...

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

In: Lafetá, João Luís. Mário de Andrade. São Paulo, Abril 

Educação, 1982. (Coleção Literatura Comentada).


        O poema Eu Sou Trezentos... pode ser a confissão do poeta sobre a sua própria diversidade. Pode também ser lido como o símbolo da personalidade fragmentada e dividida do homem contemporâneo.

        Podemos perceber que no terceiro verso, o poema traz uma sequência bem interessante de palavras: "espelhos", "Pirineus", "caiçaras". Levando-se em conta que espelhos são objetos que duplicam a imagem; Pirineus é o nome da cordilheira que separa a Espanha da França e caiçaras é uma palavra indígena que denomina um grupo.



MACUNAÍMA

      O romance de 1928, Macunaíma, o herói sem Nenhum Caráter, foi batizado por Mário de Andrade como rapsódia, um tipo de composição tirada dos cantos tradicionais ou populares.

       Fruto de longos estudos de Mário de acerca da mitologia indígena e do folclore nacional, é uma narrativa de estrutura inovadora, em termos de enredo. Logo de início, são apresentados o herói, Macunaíma, sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê, índios Tapanhumas, que vivem às margens do rio Uraricoera. Essa situação inicial é rompida com a morte da mãe. Os irmãos partem, então, da terra natal, em busca de aventuras.

        Macunaíma encontra Ci, a Mãe do Mato, rainha dos Icamiabas, tribo de amazonas. Depois de dominá-la, faz dela sua mulher e torna-se imperador do mato-virgem. Ci dá à luz a um filho, que morre. Ela também falece, em seguida, sendo transformada em estrela. Antes de morrer, ela dá um amuleto a Macunaíma: é a muiraquitã, uma pedra verde em forma de sáurio.

       Macunaíma perde o amuleto, que vai parar nas mãos de Venceslau Pietro Pietra, um mascate peruano, conhecido como o Gigante Piaimã, comedor de gente. O gigante mora em São Paulo, a cidade macota do igarapé Tietê.

       Macunaíma e seus irmãos descem o rio Araguaia em direção à cidade macota, a fim de recuperar o amuleto.

       A maior parte da narrativa se passa em São Paulo e consiste nos diversos embates entre Macunaíma e o gigante. Muitos aspectos da vida paulistana são, aí, satirizados.

      Macunaíma consegue matar Piaimã e recuperar a muiraquitã, partindo de volta ao Uraricoera. Inicia-se, então, um antagonismo seu com Vei, a deusa-sol, que oferecerá ao herói uma de suas três filhas em casamento.

      Entretanto, Macunaíma se deixa seduzir por uma varina portuguesa e começa namorá-la, perdendo a possibilidade de se casar com a filha Vei.

     Por fim, a deusa-sol se vinga. Ela manda um forte calor, que estimula a sensualidade do herói e o lança nos braços de uma uiara traiçoeira, que o mutila e o faz perder para sempre a muiraquitã.

     No final, quando o herói já não "achou graça nesta terra", foi para o Céu, ser Ursa Maior.


O ATOR GRANDE OTELO

NO PAPEL DE MACUNAÍMA (filme)





OSWALD DE ANDRADE

(1890-1954)


          José Oswald de Sousa Andrade nasceu e morreu em São Paulo (1890-1954). Começou a escrever muito cedo, tendo exercido as atividades de crítico, ensaísta, panfletário, teatrólogo, romancista e poeta. De espírito irrequieto, Oswald tinha 22 anos quando fez a primeira de várias viagens à Europa (1912), onde entrou em contato com os movimentos de vanguarda, especialmente o Futurismo e o Cubismo e de lá trouxe ideias vanguardistas que muito colaboraram para a eclosão da Semana de Arte Moderna.

             Oswald de Andrade era homem lúcido e de natureza rebelde. Coube a ele lançar os Movimentos Pau-Brasil e Antropófago, marcos do Modernismo brasileiro.

                  Oswald confessou em Um homem sem profissão:

            "Uma aragem de modernismo vindo através da divulgação na Europa do Manifesto Futurista, de Marinetti, chegaram até mim". Já em 1912, ele se propõe a combater o academismo, guerreando as quinquilharias e os museus e exaltando o culto às palavras em liberdade. Ele era soldado na linha de frente, abria caminhos e sonhava com um país mais autêntico, mais brasileiro.


OBRAS:

ROMANCE: "Os Condenados" (trilogia) - (1922-34);

                  "Memórias Sentimentais de João Miramar" (1924);

                  "A Estrela do Absinto" (1927);

                  "Serafim Ponte Grande" (1933);

                            "A Escada Vermelha" (1934);

                  "Marco Zero - a revolução melancólica" (1943).

POESIA:  "Pau-Brasil" (1925);

"Primeiro caderno do aluno de poesia Oswald de Andrade"(1927);

               "Cântico dos cânticos para flauta e violão" (1945);

               "O Escaravelho de ouro" (1945).

TEATRO: "O Homem e o Cavalo" (1934);

               "A Morta" (1937);

               "O Rei da Vela" (1937).


PUBLICOU:

MANIFESTOS: "Manifesto da Poesia Pau-Brasil" (1924);

                        "Manifesto Antropófago" (1928).

                        Escreveu ainda artigos e ensaios.



TEXTOS SELECIONADOS


OBRA "PAU BRASIL" - (livro de poesias)

          Publicado em Paris, em 1925, e ilustrado por Tarsila do Amaral, este livro de poesias foi o despertar da consciência de brasilidade em Oswald de Andrade. O nome tirado da árvore que foi produto de exportação na época colonial, serviu para designar uma "poesia de exportação".

          Trata-se de uma proposta de escrever poeticamente a história do Brasil. Assim, Oswald busca textos do passado e os reescreve, através da técnica da paródia.

              Linguagem coloquial e muito humor caracterizam estes textos.


HISTÓRIA DO BRASIL


Pero Vaz de Caminha


a descoberta


Seguimos nosso caminho por este mar de longo

Até a oitava da Páscoa

Topamos aves

E houvemos vista de terra


os selvagens


Mostraram-lhes uma galinha

Quase haviam medo dela

E não queriam pôr a mão

E depois a tomaram como espantados


primeiro chá


Depois de dançarem

Diogo Dias

Fez o salto real



CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA


Minha terra tem palmares

Onde gorjeia o mar

Os passarinhos daqui

Não cantam como os de lá


Minha terra tem mais rosas

E quase que mais amores

Minha terra tem mais ouro

Minha terra tem mais terra


Ouro terra amor e rosas

Eu quero tudo de lá

Não permita Deus que eu morra

Sem que volte para lá


Não permita Deus que eu morra

Sem que volte pra São Paulo

Sem que veja a Rua 15

E o progresso de São Paulo



TARDE DE PARTIDA


Casas embandeiradas

De janelas

De Lisboa

Terremoto azul

Fixado


Pau-Brasil. São Paulo, Globo, 1960.



OBRA "MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE JOÃO MIRAMAR"



          
Primeiro grande romance da prosa modernista brasileira, esta obra foi publicada em 1924.

        São 163 episódios numerados, tendo João Miramar como personagem central.A montagem do romance é totalmente fragmentária, o que impossibilita uma leitura linear.

           O "enredo" parte da infância de Miramar. Ainda adolescente, faz sua primeira viagem à Europa, a bordo do navio Marta. Nesse ponto, o romance assume a forma de diário de viagem.

          Quando sua mãe falece, Miramar retorna ao Brasil. Casa-se com Célia, sua prima, sem romper, contudo, um romance com a atriz Rocambola, o que causa futuro desquite.

         No final da narrativa, o herói fica viúvo, é abandonado pela amante e vai à falência, por má administração de seus bens.


              O estilo do livro é telegráfico e sintético.                                                         Seus episódios se assemelham a cenas cinematográficas.                           


MANIFESTO PAU-BRASIL


       A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos.

        O Carnaval no Rio é o acontecimento religioso da raça. Pau-Brasil.

Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O minério. A cozinha. O vatapá, o ouro e a dança.

          Toda a história bandeirante e a história comercial do Brasil. O lado doutor, o lado citações, o lado autores conhecidos. Comovente. Rui Barbosa: uma cartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza dos bailes e das frases feitas. Negras de Jockey. Odaliscas no Catumbi. Falar difícil.

         O lado doutor. Fatalidade do primeiro branco aportado e dominando politicamente as selvas selvagens. O bacharel. Não podemos deixar de ser doutos. Doutores. País de dores anônimas, de doutores anônimos. O Império foi assim. Eruditamos tudo. Esquecemos o gavião de penacho.

      A nunca exportação de poesia. A poesia anda oculta nos cipós maliciosos da sabedoria. Nas lianas da saudade universitária.

     Mas houve um estouro nos aprendimentos. Os homens que sabiam tudo se deformaram como borrachas sopradas. Rebentaram.

         A volta à especialização. Filósofos fazendo filosofia, críticos, crítica, donas de casa tratando de cozinha.

          A Poesia para os poetas. Alegria dos que não sabem e descobrem.

        Tinha havido a inversão de tudo, a invasão de tudo: o teatro de tese e a luta no palco entre morais e imorais. A tese deve ser decidida em guerra de sociólogos, de homens de lei, gordos e dourados como Corpus Juris.

      Ágil o teatro, filho do saltimbanco. Ágil e ilógico. Ágil o romance, nascido da invenção. Ágil a poesia.

         A poesia Pau-Brasil. Ágil e cândida. Como uma criança.

          (...)

        


MANIFESTO ANTROPÓFAGO


     Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.

     Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos, de todos os coletivismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz.


    Tupi, or not tupi that is the question.

    Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.

    Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia imprensa.

    O que atropelava a verdade era a roupa, o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. A reação contra o homem vestido. O cinema americano informará.

    Filhos do sol, mãe dos viventes. Encontrados e amados ferozmente, com toda a hipocrisia da saudade, pelos imigrados, pelos traficados e pelos touristes. No país da cobra grande.

     Foi porque nunca tivemos gramáticas, nem coleções de velhos vegetais. E nunca soubemos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil.

                    (...)

 


    





MANUEL BANDEIRA

(1881-1968)


          Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no Recife (PE), em 1886, e morreu no Rio de Janeiro, em 1968. Depois de morar no Rio, em Santos e em São Paulo, a família regressou ao Recife, onde permaneceu por mais algum tempo. Com 17 anos, Manuel Bandeira foi para São Paulo, a fim de ingressar na Escola Politécnica. Cursou o Colégio Pedro II, onde, mais tarde, seria professor de Português. Em São Paulo, estudou Engenharia, mas a tuberculose o impediu de concluir o curso. A doença foi-lhe um peso durante toda a vida. Em 1912, esteve na Suiça para tratamento de saúde. Nesse período, encontrou-se com os melhores poetas simbolistas e pós-simbolistas da França, que muito influenciaram suas primeiras obras. Voltando ao Rio, juntou-se a um grupo de poetas e intelectuais, entre os quais Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto e Graça Aranha. Juntamente com esses escritores, aderiu ao movimento modernista de 1922, no qual teve importante participação.


NA OBRA "CINZA DAS HORAS" (1917),

MANUEL BANDEIRA ESTAVA FORTEMENTE LIGADO

AO PARNASIANISMO E AO SIMBOLISMO.


NA OBRA "CARNAVAL" (1919),

MANUEL BANDEIRA FAZIA POEMAS

DE INCONFORMIDADE E REBELDIA,

COMO O POEMA-SÁTIRA "OS SAPOS".

O POEMA "OS SAPOS" FOI RECITADO POR RONALD DE CARVALHO

NUMA DAS NOITES DA SEMANA DE ARTE MODERNA,

SOB GRITOS E VAIAS DOS ASSISTENTES.

PARA MANUEL BANDEIRA, "OS SAPOS" SIMBOLIZAVAM

OS POETAS DE ESCOLAS PASSADAS,

ESPECIALMENTE OS PARNASIANOS.


OBRAS

POESIA: "A CINZA DAS HORAS" (1917);

               "CARNAVAL" (1919);

               "RITMO DISSOLUTO" (1924);

               "LIBERTINAGEM" (1930);

               "ESTRELA DA MANHÃ" (1936);

               "LIRA DOS CINQÜENT'ANOS" (1940);

               "BELO, BELO E MAFUÁ DO MALUNGO (1948);

               "OPUS 10" (1952);

               "ESTRELA DA TARDE" (1963);

               "ESTRELA DA VIDA INTEIRA" (1966).



Leia o poema "ANTOLOGIA", extraído de Estrela da Tarde:


A vida

Não vale a pena e a dor de ser vivida.

Os corpos se entendem mas as almas não.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


Vou-me embora p'ra Pasárgada!

Aqui eu não sou feliz.

Quero esquecer tudo:

- A dor de ser homem...

Este anseio infinito e vão

De possuir o que me possui.


Quero descansar

Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...

Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.


Quero descansar

Morrer.

Morrer de corpo e de alma.

Completamente.


(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)


Quando a Indesejada das gentes chegar

Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.



PROSA:  "CRÔNICAS DA PROVÍNCIA DO BRASIL" (1936);

               "GUIA DE OURO PRETO" (1938);

               "NOÇÕES DE HISTÓRIA DAS LITERATURAS" (1940);

               "GONÇALVES DIAS" (1952);

               "ITINERÁRIO DE PASÁRGADA (MEMÓRIAS) DE POETAS

                 E DE POESIA" (1954);

               "ANDORINHA, ANDORINHA" (1966).

OBRA "ITINERÁRIO DE PASÁRGADA"



POEMA

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

     [ protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário

     [ o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político 

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante

           [ exemplar com sem modelos de cartas e as diferentes

                maneiras de agradar às mulheres,etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

BANDEIRA, Manuel. Antologia poética. 7. ed. Rio de Janeiro, 

José Olympio, 1974. p. 71-2.

 

VOCABULÁRIO

comedido: moderado, prudente

protocolo: formalidade, norma de etiqueta

apreço: estima, consideração

cunho: espécie, detalhe, sentido

purista: o que leva ao exagero a pureza da linguagem

barbarismo: vício de linguagem

pungente: comovente, doloroso

clowns: palavra inglesa que significa palhaços, artistas grotescos ou burlescos


COMPREENSÃO DO TEXTO

1. A que escola literária se refere o poeta ao dizer que estava farto do "lirismo comedido" e "bem comportado"?

   R. À escola parnasiana

2. A expressão adjetiva "funcionário público", atribuída a lirismo, o que simboliza no contexto?

   R. Simboliza o tipo de lirismo que o poeta combate e condena: o formal, o subalterno, o subserviente ou protocolar.

3. O que quis parodiar o poeta com esta sequência de três proparoxítonos rimados: político, raquítico e sifilítico?

   R. O poeta pretendeu parodiar, isto é, ironizar as rimas metrificadas dos parnasianos ou da poética antiga.


      O poeta contesta a poética enquadrada em padrões matemáticos e modelares

que negam o verdadeiro lirismo. Percebemos quando faz referência no verso 15 "Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar

com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres,etc."


TEMÁTICA DO POEMA (CARACTERÍSTICAS)

* VALORIZAÇÃO DO PROSAÍCO E DO BOM HUMOR;

* LIBERDADE FORMAL: VERSO LIVRE, RITMO LIVRE, SEM RIMA;

* ATITUDE IRREVERENTE EM RELAÇÃO AOS PADRÕES ESTABELECIDOS;

* ABSTENÇÃO DO SENTIMENTALISMO FÁCIL.


 

    

POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL


João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro

[ da Babilônia num barracão sem número

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 5.ed.

Rio de Janeiro, José Olympio, 1974. p.117.


          poema:


VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada


Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive


E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada


Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei -

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

BANDEIRA, Manuel. Vou-me embora pra Pasárgada.

In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro. Aguilar,1967.p.264-5.




CASSIANO RICARDO

(1895-1975)


          Cassiano Ricardo Leite nasceu em São José dos Campos (SP), em 1895, e morreu em São Paulo, em 1975. Formado em Direito no Rio, voltou a São Paulo, onde se dedicou ao jornalismo e à vida administrativa e política. Participou do movimento modernista, juntamente com Menotti del Picchia e Plínio Salgado, sendo um dos líderes do Movimento Verde-Amarelo na primeira fase do Modernismo. Ainda atuou nos grupos Anta e Bandeira. Foi membro das academias Paulista e Brasileira de Letras. Personalidade criativa, acompanhou a evolução da poesia brasileira desde a fase parnasiana até a concretista.


OBRAS

POESIA: "Dentro da noite" (1915)

              "A Frauta de Pã" (1917)

              "Vamos caçar papagaios" (1926)

              "Martim  Cererê" (1928) ou O Brasil dos Meninos, dos

                poetas e dos heróis

              "Deixa estar, jacaré" (1931)

              "O sangue das horas" (1943)

              "Um dia depois do outro" (1947)

              "Jeremias sem chorar" (1964)

              "Os sobreviventes" (1971)

ENSAIO: "Marcha para o Oeste" (1943).


          Cassiano Ricardo, juntamente com os demais participantes do Movimento Verde-Amarelo, preocupava-se com as raízes da nossa formação cultural, valorizando sobretudo as lendas do folclore brasileiro.


O CURUPIRA E O CARÃO


          Travou-se a batalha. (...) De um lado o Carão, com mais de 400 anos, cinzento, encorujado, de penas híspidas e sujas. Carrança e misoneísta, miolo mole e intransigente. De um lado o Curupira: ágil, matinal, irônico, onímodo. O Espírito Novo. Luta de morte. Revolução. (...)

           CARÃO- Quem é você, Curupira?

        CURUPIRA- Sou sua nova encarnação: a máquina de estrada de ferro depois do carro de boi. O telefone depois do estafeta. O T.S.F. e a radiofonia a tornarem mediúnico o telégrafo. Sou o espírito complexo e renovador do Instante. Chamo-me Presente em trânsito para o Porvir... E você, Carão?

         CARÃO- Sou o pássaro sujo que não muda de penas. Mire-se nesta rabugice... Triste não? É condição da vida. Somos duas caras do mesmo personagem... Eu: a da canseira do teu passo, a sombra da tua vitória: o Passado. Um morto...

 
CASSIANO RICARDO;PICCHIA,Menotti del;SALGADO,Plínio.

O Curupira e o Carão. São Paulo, Hélios,1927.

(Fragmentos do prefácio)


PROPOSIÇÃO DE ATIVIDADES

1. Pesquisa.

    Mitos e Lendas estão na base de nosso folclore e de muitas obras literárias. Conhecendo-os, você terá maior fundamento, interesse e prazer ao ler essas obras. "Martim Cererê", por exemplo, de Cassiano Ricardo.

2. Pesquise e apresente por escrito ou de forma oral uma ou mais lendas.

Logicamente, você poderá comentá-las e interpretá-las, fazendo uma relação com o nosso tempo.

a) Cobra Norato                                         d) Caipora

b) Curupira                                                e) A Mãe-d'água

c) Saci-Pererê





ALCÂNTARA MACHADO

(1901-1935)


          Antônio Castilho de Alcântara Machado nasceu em São Paulo em 1901. Formou-se em Direito dedicando-se posteriormente ao jornalismo. Não participou da Semana, mas foi um dos fundadores da revista Terra Roxa e Outras Terras, além de ter colaborado na Revista de Antropofagia.

              Ingressando na política, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde exerceu também a crítica literária. Eleito deputado federal, não chegou a ser empossado. Faleceu em consequência de complicações de uma cirurgia de apêndice, no Rio de Janeiro, em 1935.


OBRA

           Pathé-Baby (1926) (crônicas de viagem);

           Brás, Bexiga e Barra Funda (1927) - contos;

           Laranja da China (1928) - contos;

           Mana Maria - romance inacabado.


      Em 1961, as três obras foram reunidas em livro, sob o título de Novelas Paulistanas, que incorporou ainda contos esparsos, publicados em jornais e revistas.



O texto que segue foi retirado da Obra "Novelas Paulistanas":


O MONSTRO DE RODAS


            O Nino apareceu na porta. Teve um arrepio. Levantou a gola do paletó.

              - Ei, Pepino! Escuta só o frio!  

            Na sala discutiam agora a hora do enterro. A Aída achava que de tarde ficava melhor. Era mais bonito. Com o filho dormindo no colo dona Mariângela achava também. A fumaça do cachimbo do marido ia dançar bem em cima do caixão.

             - Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa Senhora!

             Dona Nunzia descabelada enfiava o lenço na boca.

             - Ai, Nossa Senhora! Ai, Nossa  Senhora!

             Sentada no chão a mulata oferecia o copo de água de flor de laranja.

             - Leva ela para dentro!

             - Não! Eu não quero! Eu... não... quero!

         - Mas o marido e o irmão a arrancaram da cadeira e ela foi gritando para o quarto. Enxugaram-se lágrimas de dó.

             - Coitada da dona Nunzia!

             A negra de sandália sem meia principiou a segunda volta do terço.

             - Ave Maria, cheia de graça, o Senhor...

          Carrocinhas de padeiro derrapavam nos paralelepípedos da rua Sousa Lima. Passavam cestas para a feira do largo do Arouche. Garoava na madrugada roxa.

             - ... da nossa morte. Amém. Padre Nosso que estais no Céu.

            - O soldado espiou da porta. Seu Chiarini começou a roncar muito forte. Um bocejo. Dois bocejos. Três. Quatro.

             - ... de todo o mal. Amém.

            A Aída levantou-se e foi espantar as moscas do rosto do anjinho.

            Cinco. Seis.

        O  violão e a flauta recolhendo de farra emudeceram respeitosamente na calçada.

             Na sala de jantar Pepino bebia cerveja em companhia do Américo Zamponi (Salão Palestra Itália - Engraxava-se na perfeição a 200 réis) e o Tibúrcio (- O Tibúrcio... - O mulato? - Quem mais há de ser?).

               - Quero só ver daqui a pouco a notícia do Fanfulla. Deve cascar o almofadinha.

               - Xi, Pepino! Você é ainda muito criança. Tu é ingênuo, rapaz. Não conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego. Filho de rico manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo. É ou não é, seu Zamponi?

               Seu Américo Zamponi soltou um palavrão, cuspiu, soltou outro palavrão, bebeu soltou mais outro palavrão, cuspiu.

               - É isso mesmo, seu Zamponi, é isso mesmo!

            O caixãozinho cor-de-rosa com listras prateadas (dona Nunzia gritava) surgiu diante dos olhos assanhados da vizinhança reunida na calçada (a molecada pulava) nas mãos da Aída, da Josefina, da Margarida e da Linda.

        - Não precisa ir depressa para as moças não ficarem escangalhadas.

              A Josefina na mão livre sustentava um ramo de flores. Do outro lado a Linda tinha a sombrinha verde, aberta. Vestidos engomados, armados, um branco, um amarelo, um creme, um azul. O enterro seguiu.

      O pessoal feminino da reserva carregava dálias e palmas-de-são-josé. E na calçada os homens caminhavam descobertas.

           O Nino quis fechar com o Pepino uma aposta de quinhentão.

           - A gente vai contando os trouxas que tiram o chapéu até a gente chegar no Araça. Mais de cinquenta você ganha. Menos, eu.

           Mas o Pepino não quis. E pegaram uma discussão sobre qual dos dois era o melhor: Friedenreich ou Feitiço.

            - Deixa eu carregar agora, Josefina?

            - Puxa, que fiteira! Só porque a gente está chegando na Avenida Angélica. Que mania de se mostrar, que você tem!

            O grilo fez continência. Automóveis disparavam para o corso com mulheres de pernas cruzadas mostrando tudo. Chapéus cumprimentavam dos ônibus, dos bondes. Sinais-da-santa-cruz. Gente parada.

          Na praça Buenos Aires, Tibúrcio já havia arranjado três votos para as próximas eleições municipais.

          - Mamãe, mamãe! Venha ver um enterro, mamãe!

      Aída voltou com a chave do caixão presa num lacinho de fita. Encontrou dona Nunzia sentada na beira da cama olhando o retrato que a Gazeta publicara. Sozinha. Chorando.

         - Que linda que era ela!

         - Não vale a pena pensar mais nisso, dona Nunzia...

         O pai tinha ido conversar com o advogado.

MACHADO, Alcântara. O monstro de rodas. In: Novelas Paulistanas.

4.ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1976. p.39-41.


BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA - (livro de contos)


          Com a publicação do livro de contos "Brás, Bexiga e Barra Funda", em 1927, Alcântara Machado consagrou-se como um exímio contista.


A GRANDE CARACTERÍSTICA DO ESCRITOR:

* Está na particularidade com que constrói o retrato da cidade

de São Paulo;

* Focaliza o imigrante italiano - com destaque para os mais pobres -,

* Tece uma imagem crítica, apaixonada e, por vezes, anedótica

desses grupos europeus que aportaram em São Paulo

e se radicaram nos bairros que dão nome à obra.


            Acompanhe a leitura do conto Lisetta (retirado da obra "Novelas Paulistanas").


LISETTA


         Quando Lisetta subiu no bonde (o condutor ajudou) viu logo o urso. Felpudo, felpudo. E amarelo. Tão engraçadinho.

            Dona Mariana sentou-se, colocou a filha em pé diante dela.

          Lisetta começou a namorar o bicho. Pôs o pirulito de abacaxi na boca. Pôs mas não chupou. Olhava o urso. O urso não ligava. Seus olhinhos de vidro não diziam absolutamente nada. No colo da menina de pulseira de ouro e meias de seda parecia um urso importante e feliz.

           - Olha o ursinho que lindo, mamãe!

           - Stai zita!

          A menina rica viu o enlevo e a inveja de Lisetta. E deu de brincar com o urso. Mexeu-lhe com o toquinho do rabo: e a cabeça do bicho virou para a esquerda, depois para a direita, olhou para cima, depois para baixo. Lisetta acompanhava a manobra. Sorrindo fascinada. E com um ardor nos olhos! O pirulito perdeu definitivamente toda a importância.

        Agora são as pernas que sobem e descem, cumprimentam, se cruzam, batem umas nas outras.

           - As patas também mexem, mamãe. Olha lá!

           - Stai zita!

           Lisetta sentia um desejo louco de tocar no ursinho. Jeitosamente procurou alcança-lo. A menina rica percebeu, encarou a coitada com raiva, fez uma careta horrível e apertou contra o peito o bichinho que custara cinquenta mil-réis na Casa São Nicolau.

           - Deixa pegar um pouquinho, um pouquinho só nele, deixa?

           - Ah!

       - Scusi, senhora.  Desculpe por favor. A senhora sabe, essas crianças são muito levadas. Scusi. Desculpe.

          A mãe da menina rica não respondeu. Ajeitou o chapeuzinho da filha, sorriu para o bicho, fez uma carícia na cabeça dele, abriu a bolsa e olhou o espelho.

         Dona Mariana, escarlate de vergonha, murmurou no ouvido da filha:

            - In casa me lo pagherai!

         E pespegou por conta um beliscão no bracinho magro. Um beliscão daqueles.

       Lisetta então perdeu toda a compostura de uma vez. Chorou. Soluçou. Chorou. Soluçou. Falando sempre:

           - Hã! Hã! Hã! Hã! Eu que...ro o ur...so! O ur...so! Ai, mamãe! Ai, mamãe! Eu que...ro o... o... o... Hã! Hã!

            - Stai ferma o ti ammazzo, parola d' onore!

            - Um pou...qui... nho só! Hã! E... hã! E... hã! Um pou... qui...

            - Senti, Lisetta. Non ti porterò più in città! Mai più!

      Um escândalo. E logo no banco da frente. O bonde inteiro testemunhou o feio que Lisetta fez.

          O urso recomeçou a mexer com a cabeça. Da esquerda para a direita, para cima e para baixo.

             - Non piangere più adesso!

             Impossível.

            O urso lá se fora nos braços da dona. E a dona só de má, antes de entrar no palacete estilo empreiteiro português, voltou-se e agitou no ar o bichinho. Para Lisetta ver. E Lisetta viu.

           Dem-dem! O bonde deu um solavanco, sacudiu os passageiros, deslizou, rolou, seguiu. Dem-dem!

             - Olha à direita!

          Lisetta como compensação quis sentar-se no banco. Dona Mariana (havia pago uma passagem só) opôs-se com energia e outro beliscão.

            A entrada de Lisetta em casa marcou época na história da família Garbone.

            Logo na porta um safanão. Depois um tabefe. Outro no corredor.

Intervalo de dois minutos. Foi então a vez das chineladas. Para remate. Que não acabava mais.

        O resto da gurizada (narizes escorrendo, pernas arranhadas, suspensórios de barbante) reunido na sala de jantar sapeava de longe.

            Mas o Ugo chegou da oficina.

            - Você assim machuca a menina, mamãe! Coitadinha dela!

           Também Lisetta já não aguentava mais.

           - Toma pra você. Mas não escache.

          Lisetta deu um pulo de contente. Pequerrucho. Pequerrucho e de lata. Do tamanho de um passarinho. Mas urso.

         Os irmãos chegaram-se para admirar. O Pasqualino quis logo pegar no bichinho. Quis mesmo tomá-lo à força. Lisetta berrou como uma desesperada:

            - Ele é meu! O Ugo me deu!

            Correu para o quarto. Fechou-se por dentro.

In: Novelas Paulistanas. Rio de Janeiro, José Olympio,1973.]


         

          


MENOTTI DEL PICCHIA

(1892-1988)


          Paulo Menotti del Picchia nasceu e morreu em São Paulo (1892-1988). Viveu, portanto, 96 anos. Em 1913, bacharelou-se em Direito pela Faculdade de São Paulo. Foi agricultor, advogado, jornalista, editor, industrial, banqueiro e deputado estadual e federal.

                  Dirigiu A Tribuna de Santos, O Correio Paulistano, A Gazeta, A Noite. Em 1922, foi um dos principais líderes, mentores e divulgadores da Semana de Arte Moderna. Junto com Plínio Salgado e Cassiano Ricardo, incentivou o movimento literário e nacionalista do Verde-Amarelismo. Desligando-se posteriormente de Plínio Salgado, assumiu em 1937, juntamente com Cassiano Ricardo e outros, a direção do movimento da Bandeira e da "Revolução da Anta". Foi membro das academias Paulista e Brasileira de Letras. Mais conhecido como poeta, foi também ensaísta, ficcionista, teatrólogo, escultor, pintor e compositor. Consagrou-se com Juca Mulato (1917), o poema brasileiro mais editado, lido e recitado deste século, na opinião de Paulo Rónai.


OBRAS:

             Poesia: "Juca Mulato" (1917);

                          "Chuva de Pedras" (1925);

                          "República dos Estados Unidos do Brasil"(1928);

                          "Poemas"(1935).

             Romance: "O Homem e a Morte"(1922);

                               "A Tormenta"(1931);

                               "Salomé"(1958).




A VOZ DAS COISAS


E Juca ouviu a voz das coisas. Era um brando:

"Queres tu nos deixar, filho desnaturado?"

.................................................................

Juca olhou a floresta: os ramos, nos espaços,

pareciam querer apertá-lo entre os braços:

"Filho da mata, vem! Não fomos nós, ó Juca,

o arco do teu bodoque, as grades da arapuca,

o varejão do barco e essa lenha sequinha

que de noite estalou no fogo da cozinha?

Depois, homem já feito, a tua mão ansiada

não fez, de um galho tosco, um cabo para a enxada?"

"Não vás" - lhe disse o azul. "Os meus astros ideais

num forasteiro céu tu nunca os verás mai

Hostis, ao teu olhar, estrelas ignoradas

hão de relampejar como pontas de espadas.

Suas irmãs daqui, em vão, ansiosas, logo

irão te procurar com seus olhos de fogo...

Calcula, agora, a dor destas pobres estrelas

correndo atrás de quem anda fugindo delas..."

PICCHIA, Menotti del. Juca Mulato. 7. ed. São Paulo,

Nacional, 1927. p.54.



COMENTANDO O TEXTO

          Nesse texto poético, os Ramos e o azul se comunicam. As coisas inanimadas falam a Juca e expressam sentimentos próprios de seres animados. A floresta, os ramos, os espaços, o arco, o bodoque, as estrelas são alguns elementos da natureza que denotam nacionalismo e nativismo do autor.

 

 

 

 

RAUL BOPP



HISTÓRIA DO BRASIL EM QUADRINHOS


I

          No meio do Brasil havia um rio que não tinha margens. Rio imenso. A água corria, corria. Correu tanto que um dia secou.

          Apareceram, então, na crosta, na crosta mole, à flor da terra, montões de pedrarias de vivas rutilâncias. O sol brincava com diamantes. Dos barrancos beiçudos, sangrava ouro, em veios retorcidos. O ferro relampeava nas jazidas, que se estendiam em léguas intermináveis.

            Deus pensou um pouco: Será melhor que o ser humano não pegue logo essas riquezas! Mandou o Anjo número Um cobrir de terra tudo isso. Amontoou montanhas. Espalhou mato em toda parte. - Quem quiser essa opulência que a procure! E escondeu o petróleo mais pro fundo.

            Depois disse pro Anjo: - Vou passar aqui as minhas férias. Essa terra é mesmo tão graciosa, sem tufões, sem vulcões, sem terremotos. E ficou esperando pelos acontecimentos históricos.

II

                   Um dia, viu umas naus portuguesas paradas no oceano, por falta de vento. Deu um assoprão nas velas murchas. Vieram logo bater nas costas brasileiras. - Ué, exclamou Cabral, do alto da proa: Essa terra não existe nos mapas! Mas, mesmo assim desembarcaram.

III

           E foram chegando outras naus, com hordas de homens ansiosos de aventura. Avançaram terra a dentro. À procura de ouro. Depois avançaram nas tapuias de pele dourada. Avançaram nas negras de carnes reluzentes, trazidas em navios negreiros.

IV

          E o Brasil foi se fazendo desse jeito, em grandes misturas, com violências, estupros e adultérios.

            As Cortes de Lisboa estavam cada vez mais prósperas. Enviavam feitores e governadores, com Alvarás e novas Cartas Régias.

           As caravelas voltavam abarrotadas de acúcar, pau-brasil e ouro. O Brasil era propriedade de el-Rey.

       Mas a Colônia desgostosa se agitava, com revoltas, motins, inconfidências.

             Um dia, o povo oprimido deu um berro: - Agora chega! Basta de exploração! Foi um berro para valer mesmo. Valeu, tempos depois, a nossa independência.

BOPP, Raul. História do Brasil em Quadrinhos.

Correio do Povo. Porto Alegre, 2 set. 1978.